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RESTRINGIR A LEITURA DE MUNDO DE ESTUDANTES: O DESMONTE DAS BIBLIOTECAS ESCOLARES EM PORTO ALEGRE

Foto: Bettina Gehm / Sul21

César Rolim, Dirlene Marimon e Rosinaura Lisboa de Barros  (*)

A realidade que verificamos é que o objetivo da atual gestão municipal não é mais estimular o prazer em ler nas bibliotecas

 

Mais que escrever e ler que a ‘asa é da ave’, os alfabetizandos necessitam perceber a necessidade de um outro aprendizado: o de ‘escrever’ a sua vida, o de ‘ler’ a sua realidade, o que não será possível se não tornam a história nas mãos para, fazendo-a, por ela serem feitos e refeitos. 

Paulo Freire – Ação cultural para a liberdade e outros ensaios.

 

A leitura pode garantir essas forças de vida? O que esperar dela — sem vãs ilusões — em lugares onde a crise é particularmente intensa, seja em contextos de guerra ou de repetidas violências? […] Em tais contextos, crianças, adolescentes e adultos poderiam redescobrir o papel dessa atividade na reconstrução de si mesmos e, além disso, a contribuição única da literatura e da arte para a atividade psíquica. Para a vida, em suma.

Michèlle Petit. A arte de ler ou como resistir à adversidade.

 

O documento orientador divulgado no final do ano passado pela Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED/POA) restringe quem pode atuar nas bibliotecas escolares, exigindo que somente professoras(es) com delimitação de função (que não lecionam em sala de aula, normalmente por questões de saúde) possam trabalhar nesses espaços. Essa medida levou ao fim de projetos culturais e pedagógicos importantes dentro de bibliotecas escolares da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA), como os desenvolvidos na EMEF Vila Monte Cristo, no bairro Vila Nova, que por anos abrigaram clubes de leitura, semanas literárias, saraus musicais e diversas outras atividades formativas importantíssimas para a comunidade escolar.

A justificativa para a norma da SMED pode parecer técnica: “tornar mais especializada a atuação em espaços que reúnem acervos, leitura e formação cultural”. No entanto, na prática, essa orientação representa um retrocesso ao fragilizar as funções que já vinham sendo exercidas com relevância pedagógica e social por colegas professoras(es) integrantes de equipes dedicadas que realizavam trabalhos excelentes.

Importante lembrar que as bibliotecas escolares não são apenas depósitos de livros e outros acervos. E, sim, elas são centros vivos de leitura, cultura, reflexão, pesquisa e encontro entre estudantes, educadoras(es) e comunidade escolar. Ainda mais em escolas localizadas em territórios/bairros socialmente vulneráveis. Ao reduzir drasticamente o número de profissionais que interagem nesses espaços e ao limitar funções de leitura a um perfil estreito de servidores, abre-se a porta para o enfraquecimento desses ambientes, precarizando o atendimento e às atividades formativo-culturais ofertadas.

Biblioteca como espaço vivo de formação humana versus a o desmonte de projetos de incentivo à leitura

A avaliação crítica de especialistas, como o próprio Conselho Regional de Biblioteconomia da 10ª Região (CRB-10), que classificou a ação da SMED como ilegal por desconsiderar a contratação de bibliotecários profissionais, aponta para um problema maior: a falta de compreensão da Secretaria sobre o papel estratégico das bibliotecas na formação integral de estudantes. A resposta do Conselho ainda prevê a possibilidade de fechamento de muitas bibliotecas escolares municipais, cenário que remete a episódios anteriores de desmonte desse tipo de espaço no Estado. No caso de que a escola tenha um(a) bibliotecário(a), não impede que tenha professores atuando em biblioteca, já que não há no município, há muito tempo, concurso para tal. É por isso que professores ocupam esses espaços, assim como todos os outros espaços da escola, dentro de uma proposta pedagógica.

Esse desmonte de projetos das bibliotecas também reflete um problema mais amplo nas políticas públicas educacionais locais: as parcerias público-privadas (PPPs), refletindo a lógica neoliberal, o foco em processos administrativos ou tecnicistas em detrimento de práticas pedagógicas que promovam cultura, leitura, pensamento crítico e autonomia estudantil. Ao priorizar critérios restritivos de atuação sobre a garantia de acesso à leitura e à cultura, a SMED corre o risco de comprometer a construção de competências fundamentais para a formação cidadã dos alunos. Em um momento em que diversas outras iniciativas em Porto Alegre tentam promover leitura e incentivo à leitura, como a participação da educação municipal na Feira do Livro de Porto Alegre, a medida contrária dentro das escolas parece destoar e fragilizar uma política de educação integral e culturalmente rica.

A orientação da SMED que limita e acaba com projetos de biblioteca escolar evidencia um contrassenso entre discurso e prática na gestão educacional: enquanto se fala em valorizar a aprendizagem e cultura, corta-se progressivamente apoio a práticas concretas que efetivamente promovem esses valores. A crítica, portanto, não é apenas administrativa, mas pedagógica sinalizando que, sem uma compreensão profunda do papel das bibliotecas como espaços de formação humana, Porto Alegre corre o risco de precarizar o seu projeto educativo e limitar a formação de seus estudantes.

A experiência da EMEF Vila Monte Cristo: biblioteca como centro da escola e uma resposta às necessidades da comunidade

Colegas da EMEF Monte Cristo bancaram junto à SMED, por muitos anos, um projeto de biblioteca (que incluiu o Clube de Leitura Érico Veríssimo) que envolveu de uma manem horas e propostas. Professores com delimitação não atendiam na biblioteca, inclusive com tentativa de imposição da própria Secretaria, porque acreditava-se que a biblioteca era vista como centro da escola, teria que estar todos os dias e turnos abertos à comunidade escolar, ao bairro, em constante atividade pedagógica e cultural que exigia planejamento e ação conjunta com a equipe pedagógica e professores em geral.

Clube de Leitura Érico Veríssimo abria as portas para o prazer de ler. As obras escolhidas em conjunto, sempre com literatura fantástica, com alguma ênfase em autoras e autores brasileiros. Estudantes permaneciam inclusive fora do horário de aula. E o que começou timidamente com 6 estudantes, chegou a 45 com lista de espera. Muitos levavam a obra do Clube pro recreio porque isso era status [sim, quem estava no Clube era admirada(o), abordada(o) por outras pessoas com curiosidade] e isso já diz muito. Importante essa contextualização e resgate histórico, pois é doloroso perceber o modo arbitrário que os projetos pedagógicos foram sendo extinguidos pela atual gestão municipal, este inclusive.

A biblioteca da EMEF Vila Monte Cristo foi constituída como um espaço de leitura, cultura e lazer, fruto da necessidade daquela comunidade onde está inserida, visto que não havia por lá um espaço que pudesse atendê-los nos 3 turnos com projetos variados como clube de leitura, semana literária, sarau musical, espetáculos teatrais, encontro com escritores, Feira do livro e diversas outras atividades culturais e de formação de leitoras(es).

A concepção era de que a Biblioteca é um centro vivo de leitura, alma, coração da escola, todas as atividades pedagógicas perpassam por esse espaço. Como lembra Michèle Petit (2009, p. 141) mesmo no interior da escola, a biblioteca deve ser um espaço cultural, mais do que um complemento didático, para dar lugar a percursos singulares, a achados imprevistos (em particular no caso de quem não pode ter acesso a uma biblioteca familiar). Ela não deveria estar a serviço apenas da pedagogia, mas se afirmar como um espaço de não-obrigação no interior da obrigação.

Assim, para realização deste trabalho valiosíssimo é necessário um diálogo entre bibliotecárias(os) e professoras(es) concursadas(os), com carreiras valorizadas, ou seja, fundamentalmente, de profissionais comprometidos com esses projetos, capazes de atender à comunidade escolar e da Vila Nova.

A quem interessa diminuir a leitura de mundo de estudantes da RME/POA?

Quem gosta de ler desenvolve senso crítico, capacidade de síntese, interpretação. Conhece novos mundos, realidades e culturas. Cresce como ser humano, desperta e estimula inclusive o sentido de cidadania. O Clube de Leitura Érico Veríssimo, por exemplo, foi um desses projetos na EMEF Monte Cristo que por dez anos (2009 a 2019 e retornou com outra modalidade) promoveu e incentivou a leitura de jovens e adolescentes com tanta importância que as(os) próprias(os) diziam que ali descobriram o prazer de ler, que o livro estava na cabeceira da cama, na mochila, havia virado um companheiro para a vida, pois como lembra Michèle Petit (2009, p. 11): o gosto pela leitura e a sua prática são, em grande medida, socialmente construídos.

As bibliotecas das escolas municipais podem acabar como muitas do Estado, em que uma professora tem a chave da sala e de vez em quando abre para alguma turma que está sem professor. A que projeto educacional interessa diminuir o trabalho essencial desenvolvido nas bibliotecas nas escolas da RME/POA, todas em comunidades mais vulneráveis e carentes de espaços públicos de lazer e cultura?! Qual o propósito de colocar nelas professores que são delimitados, ou seja, não podem estar em turmas tendo contato com os alunos e alunas?! Sem projetos de incentivo, sem Hora do Conto, sem Clube de Leitura. Nada.

Defendemos a permanência e o fortalecimento de projetos de incentivo à leitura, algo essencial para uma educação que busque a cidadania plena. Para tanto é necessário reforçar a concepção defendida por Beatriz Robledo (2009, p. 38) que afirma o papel essencial de uma biblioteca no interior de uma população marginalizada, muito além do fornecimento de informação ou de um apoio à educação formal. Pois, para aquelas e aqueles que foram privados de seus direitos fundamentais, ou de condições mínimas de vida, um livro é talvez a única porta que pode permitir-lhes cruzar a fronteira e saltar para o outro lado.

A realidade que verificamos é que o objetivo da atual gestão municipal não é mais estimular o prazer em ler nas bibliotecas. Sem novas descobertas, sem universos surreais, sem o orgulho de dizer que ama ler e aprendeu isso ali, naquele ambiente mágico. Nada do encantamento de gostar de ler e tudo que proporciona. Os cacos e fragmentos de um trabalho maravilhoso, isso que vai sobrar para nossos meninos e meninas a partir desse decreto.

O objetivo é óbvio. Vamos “diminuir o mundo” e a leitura dele por parte dos nossos educandos e educandas! Revoltante!

A seguir alguns relatos de estudantes: 

Caroline Moura: A biblioteca da Escola Municipal Vila Monte Cristo, chamada de Érico Veríssimo marcou profundamente a minha trajetória no ensino fundamental. Mais do que um espaço com livros, ela era um lugar de acolhimento, descoberta e encantamento. Foi ali que tive contato com histórias que despertaram minha imaginação, ampliaram meu olhar sobre o mundo e fortaleceram, pouco a pouco, o gosto pela leitura. Cada visita à biblioteca representava uma oportunidade de aprender de forma prazerosa, de viajar por outros mundos e de construir sonhos. Esse espaço foi fundamental para minha formação escolar e pessoal, pois contribuiu para o desenvolvimento da curiosidade, da sensibilidade e do desejo de aprender, deixando memórias afetivas que carrego comigo até hoje.

As marcas positivas que este espaço me oportunizou refletem na minha vida profissional, pois me tornei professora e na minha prática pedagógica diária os livros são extremamente importantes e estão presentes no planejamento das propostas. 

A bibliotecária Rosinaura, foi um pilar fundamental para que eu me tornasse uma criança, uma jovem e hoje adulta apaixonada por livros. As vivências experienciadas através da biblioteca da Monte Cristo, são alicerces que mudam vidas. Lamento demais essa atitude, fechar um espaço rico e potente é dar espaço para criminalidade e assim mudar destinos. Desejo do fundo do meu coração, que essa atitude seja repensada. 

Com muito afeto, pela biblioteca Érico Veríssimo e professoras. 

Giovana Senna: A Biblioteca Érico Veríssimo foi muito mais do que uma biblioteca. Foi um espaço de formação profunda e transformadora. Foi ali que, por meio do clube de leitura, eu realmente aprendi a ler — não no sentido da alfabetização, que eu já possuía, mas no sentido do letramento cultural. Eu não gostava de ler, e costumo dizer que meu verdadeiro marco de letramento começou em 2012, dentro daquele clube de leitura.

Foi nessa biblioteca que tive a oportunidade de participar de feiras do livro, de ouvir e dialogar com escritores, de passar o turno inverso vagando entre as estantes como uma verdadeira traça, descobrindo novos mundos, novas narrativas e novas possibilidades de existir. A Biblioteca Érico Veríssimo foi, para mim, um espaço de reconhecimento, de acolhimento e de liberdade criativa. Um lugar onde aprendi a exercer a autocrítica, a ampliar meu entendimento político e social. Foi segurando um livro e devorando cada palavra dele que pude entender o ditado: a casa grande surta quando a senzala aprende a ler.

É graças à Biblioteca Érico Veríssimo, ao clube de leitura e à professora Dirlene que hoje posso afirmar, com consciência e orgulho, que sou uma mulher preta, pertencente à comunidade LGBT, com voz, pensamento crítico e pertencimento. Fechar bibliotecas como essa é fechar portas que mudam destinos, é arrancar de cada aluno a chance de se encontrar, de sonhar e de ter acesso a conhecimento e cultura, algo que já é escasso e tratado como privilégio.

Jonas CastilhosA primeira vez que entrei na biblioteca me senti intimidado com a grande quantidade de livros, nunca tinha visto nada parecido. O que  me convidou a entrar foram as portas abertas e o sorriso da bibliotecária que ficava numa mesa em frente a porta. Fui direto passear por entre as prateleiras fascinado com as infinitas escolhas através desse mundo novo. Não sabia o que escolher e pedi ajuda, depois de responder algumas questões fui levado para uma prateleira com muitas opções.  

Dali em diante meu universo cresceu, ele não cabia mais nos muros da escola e não tinha fronteiras, eram mistérios sem fim, visitas a outros países, me fazendo sentir em outras épocas, nada mais era limitado e soube que essa relação com a leitura nunca mais teria fim.  

Até hoje dentro de mim vive a relação com livros que naquele dia se iniciou e hoje conservo com o mesmo carinho, gratidão e sonhos. Lutar por uma biblioteca enquanto espaço de acolhimento, crescimento, acompanhamento, encorajamento é lutar por mais possibilidades para todos, é dar asas para aqueles que nem sabiam o quão alto podiam voar. Quem sabe o poder de uma biblioteca não limita ela nem restringe profissionais que incentivam e guiam essa caminhada

(*) César Rolim é Professor de História da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA), Técnico Administrativo em Educação na Biblioteca Central da UFRGS e Coordenador da ASSUFRGS; Dirlene Marimon é Professora aposentada da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA); Licenciada em Educação Física pela UFRGS, Especialista em Educação Física Escolar pela UnB; Atuou por 28 anos em sala de aula em escolas da RME/POA, especialmente, na EMEF Vila Monte Cristo; criadora e coordenadora do projeto de incentivo à leitura “Clube de Leitura Érico Veríssimo” para estudantes de segundo e terceiro ciclos bem como a comunidade escolar; Rosinaura Lisboa de Barros é Professora aposentada da Rede Municipal de Ensino de Porto Alegre (RME/POA); Licenciatura em Letras pela PUCRS; Bacharel em Biblioteconomia pela UFRGS; Especialista em Língua Portuguesa pela FAPA; Atuou por 19 anos na Biblioteca Érico Veríssimo da EMEF Vila Monte Cristo. 

O presente artigo foi originalmente publicado no Sul21.

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