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ARTIGO DE OPINIÃO | ATÉ QUANDO A VOZ DO FUNCIONALISMO MUNICIPAL SERÁ SILENCIADA?

Certos poemas atravessam o tempo porque retratam mecanismos recorrentes pelos quais o silêncio transforma a injustiça em rotina. Os versos da consagrada composição “No Caminho com Maiakóvski”, de Eduardo Alves da Costa, continuam ecoando na realidade do funcionalismo municipal de

Engenheiro Civil Adriano Skrebsky Reinheimer, servidor público efetivo do DMAE/PMPA, conselheiro Deliberativo da Astec gestão 2025-2026

Certos poemas atravessam o tempo porque retratam mecanismos recorrentes pelos quais o silêncio transforma a injustiça em rotina. Os versos da consagrada composição “No Caminho com Maiakóvski”, de Eduardo Alves da Costa, continuam ecoando na realidade do funcionalismo municipal de Porto Alegre ao advertirem sobre a perda gradual de direitos:

“Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem: pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada.”

Essa dinâmica resgata a antiga premissa econômica dos anos 1970 de “fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”. Embora governos, slogans e embalagens ideológicas se alternem, a lógica orçamentária permanece inalterada: resta ao servidor aguardar o crescimento da arrecadação, o equilíbrio fiscal e a próxima data-base, em um horizonte no qual o bolo se expande enquanto a fatia de quem trabalha encolhe gradativamente.

O servidor municipal de Porto Alegre vivencia, no seu dia a dia, a perda do poder de compra. Ano após ano, o contracheque digital mantém valores nominalmente estagnados diante da inflação acumulada, resultando na corrosão silenciosa da renda, sem o devido alarde público.

Aprofundado em gestões anteriores e agravado na administração de Sebastião Melo, esse processo acumulou, entre maio de 2016 e julho de 2026, uma defasagem de 43,21% entre a inflação acumulada e o reajuste concedido aos servidores do Executivo. Para restabelecer o poder aquisitivo original, sem qualquer ganho real, faz-se necessária uma recomposição salarial de 35,40%.

A análise dos indicadores fiscais revela que essa reposição não compromete as contas públicas. No primeiro quadrimestre de 2026, a Prefeitura de Porto Alegre registrou despesas com pessoal equivalentes a 39,33% da Receita Corrente Líquida (RCL) ajustada, patamar bem inferior ao limite prudencial de 51,3%, estabelecido pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

Com a Lei Orçamentária de 2026 projetando R$ 3,85 bilhões para despesas com pessoal, frente a uma RCL estimada em R$ 9,18 bilhões, resta evidente, segundo esses indicadores, a margem orçamentária do Executivo. A concessão da reposição é, portanto, uma decisão de alocação de recursos públicos, cabendo ao prefeito Sebastião Melo e à secretária da Fazenda, Ana Pellini, conduzirem o debate sem impor ao servidor o ônus do ajuste fiscal.

Essa negociação exige também transparência quanto às disparidades internas da estrutura funcional. É fundamental que a diretoria do Sindicato dos Municipários de Porto Alegre (Simpa), Gestão 2025/2028, paute ativamente e coloque na mesa de negociação o combate às assimetrias entre as carreiras. Enquanto setores do topo da pirâmide, como procuradores e auditores, contam com gratificações e honorários que atingem o teto constitucional, a estagnação salarial atinge de forma desproporcional a base da estrutura, para a qual cada percentual não recomposto representa privação direta de itens básicos de subsistência.

Se o orçamento municipal comporta investimentos em obras e a ampliação desmedida de cargos comissionados (CCs), deve comportar igualmente a preservação da renda de quem executa os serviços públicos essenciais. Recomposição inflacionária não é privilégio nem aumento real; é medida destinada exclusivamente a evitar a degradação das condições de vida do servidor.

O Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) exemplifica essa contradição. Durante os eventos climáticos severos de 2024, seus servidores atuaram na linha de frente do esgotamento e do abastecimento, em condições adversas: na lama, no barro, debaixo d’água e em meio ao lixo e ao esgoto. Em contrapartida, medidas recentes, como o cancelamento da antecipação da Gratificação Natalina, prática historicamente mantida em julho, refletem um duro retrocesso nas relações de trabalho na Autarquia.

Diante desse quadro, faz-se urgente abastecer a opinião pública com informações claras e objetivas acerca da necessidade de recomposição imediata das perdas inflacionárias acumuladas pelos servidores e da revisão da antecipação do 13º salário aos profissionais do saneamento básico.

As estrofes finais de Eduardo Alves da Costa sintetizam a inconformidade diante do silenciamento imposto:

“E por temor eu me calo, por temor aceito a condição de falso democrata e rotulo meus gestos com a palavra liberdade, procurando, num sorriso, esconder minha dor diante de meus superiores. Mas dentro de mim, com a potência de um milhão de vozes, o coração grita – MENTIRA!”

A desvalorização do funcionalismo e o esquecimento dos serviços prestados nos momentos de crise não condizem com a promessa de valorização do serviço público.

Ainda há tempo hábil para rever essas decisões.

 

 

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